Sunday, June 24, 2007

Novas notícias em 2007

Aguarde.

Este ano o Advertido buscará ser mais atualizado, colocando matérias interessantes.

Abraços e até breve

Wednesday, August 16, 2006

Análise de um belo anúncio



Um Belo Anúncio


A universidade é o lugar onde o conhecimento é criado e difundido. Novos rumos e descobertas alimentam a sociedade aprimorando a cultura. Na ESPM, o foco das discussões está na comunicação humana, na comunicação voltada para o mercado, na administração e em todas as variantes dessas matérias principais.
Especificamente no Curso de Comunicação Social ESPM, de quando em quando, surge um anúncio que desperta a discussão entre professores que, posteriormente, chegam aos alunos. Um desses anúncios é o tema para uma saudável discussão sobre as variáveis que compõem uma peça publicitária. Longe do simples gostar ou não gostar, a análise que segue foi feita por especialistas em artes plásticas e ciências, deixando de lado qualquer referência à tarefa dos publicitários de criar o anúncio e acionar, intuitivamente ou não, as forças que pretensamente deveriam agir no público consumidor da mensagem. Por isso, a análise é estética, de significado e psicológica.
O anúncio é sobre o automóvel Vectra da GM. E o anúncio analisado é o que utiliza Narciso, uma figura mitológica, ilustrado a partir do quadro de Caravaggio.
Porém, antes das considerações dos especialistas, vamos conhecer o pedido que deu origem à campanha. Cristina Ponte - da equipe de Brand Management do Vectra - é quem gentilmente nos passou as informações que seguem: O briefing passado para a agência McCann Ericksson tinha como objetivo principal de comunicação a manutenção da forte imagem do Vectra. Pesquisas de mercado nos indicam que a marca Vectra é a mais forte em termos de imagem dentro do mercado de veículos de passageiros. Vectra é sinônimo de elegância e beleza e, apesar de seu tempo de mercado, continua sendo o carro dos sonhos de boa parte dos brasileiros. Sendo assim, manter os altos níveis de lembrança espontânea e consideração pela marca é um grande desafio. Além disso, a imagem de um automóvel com estilo único e arrojado deveria ser sustentada, apesar de uma virada de ano modelo (2001/2002) que incorporou poucas novidades ao produto.O perfil detalhado do público, bem como o posicionamento da marca, foramdiscutidos em detalhes com a agência - mas infelizmente os mesmos sãoconsiderados dados confidenciais.Com estas informações, a McCann desenvolveu a campanha "Vectra, o mais belo", que usa dos ícones da beleza (Narciso e Bruxa Má) para reforçar a imagem do veículo. A campanha teve anúncios de página dupla nas revistas Veja, Isto É, Época, Caras, Exame, Isto É Dinheiro, Carta Capital e Estampa, todas com um perfil de leitores similar ao perfil dos compradores do veículo. Como sustentação foram desenvolvidos banners e "skyscrapers" para internet, com inserção nos sites UOL e BOL.

Análise Estética – Vectra. O mais belo.

Professora Silvana Novaes Ferreira


Não pretendo nesta breve análise fazer comentários sobre a eficiência deste anúncio do ponto de vista mercadológico. A minha análise vai se restringir aos elementos estruturais da imagem e da utilização de uma obra de arte como inspiração e ponto de partida para sua composição.
Tenho verificado a constante utilização de obras de grandes mestres da pintura nos anúncios publicitários, porém quase sempre essa releitura não tem acrescentado nada, tanto à propaganda quanto ao mestre que passou quase toda a sua vida elaborando conceitos que, depois são manipulados de maneira inadequada e muitas vezes até agressiva e irresponsável.
Como professora de História da Arte num curso de Comunicação, sempre estimulei os meus alunos a ampliarem o seu repertório visual e conceitual na Arte, pois acredito que a prática da criação na propaganda, ou na manifestação artística, requer um profundo compromisso com o conhecimento estético e uma constante reflexão sobre o que nos rodeia.
No caso específico do anúncio “Vectra o mais Belo”, ocorre uma aliança de linguagens no mínimo digna de análise: a utilização da obra de Caravaggio* (Narciso) e a interferência feita pelos criadores da propaganda.
O início da análise baseia-se na composição e verificação das estruturas visuais. A figura dominante tanto do personagem quanto do reflexo (carro) são destacadas por incidências de luz e sombra (Sfumato)**, delineando essas figuras, realçando o seu volume e imprimindo ritmo à composição. Esse ritmo de luz também é determinante para que a composição se torne extremamente equilibrada, ordenando a entrada e o caminho percorrido até a finalização do nosso olhar. Nesse caso o efeito da luz é fundamental já que estamos falando de uma composição quase monocromática. Ocorre uma exploração da escala de luz dos cinza-azulados com pequenas variações (a exemplo de Caravaggio, porém este, com a escala de ocres), onde o preto (menor reflexão de luz) e o branco (maior reflexão de luz), marcam o começo e o fim dessa escala. A única exceção está justamente na MARCA, em amarelo, que está localizada no canto inferior direito da página, cuja tonalidade aparece diluída na cor azul-acinzentada do céu bem ao encontro da linha do horizonte, na parte superior direita, acentuando a nossa percepção de profundidade em contraste com o plano de luz e sombra estabelecido no personagem. Esse efeito destaca ainda mais o primeiro plano do tema na composição.
Outra técnica, ainda dentro da análise da luz, é o Chiaro/Scuro***, observada mais pontualmente na roupa do personagem, em particular na camisa e no colete. Esse efeito encontra seqüência na imagem do carro refletida no rio, cujo contraste do Claro e Escuro se dilui nas linhas paralelas do reflexo, gerando uma idéia de ação e movimento, reforçada quando olhamos a propaganda de cabeça para baixo. Na seqüência da leitura da imagem, o contraste volta a ser pontual na frase do canto inferior direito da página, cujas letras são brancas em fundo escuro. Mais uma vez, essa estrutura visual ajuda a ordenar a entrada e saída do nosso olhar colaborando para a retenção da mensagem pelo espectador.
Finalmente, além dos efeitos causados pela luz, podemos analisar a estrutura da composição, mais especificamente quanto ao enquadramento. Há uma predominância de linhas horizontais (vide ilustração) que rege a distribuição dos elementos, gerando uma sensação de estabilidade e harmonia, que aliada aos efeitos da luz já mencionados acima, nos levam a uma profunda introspecção, sugerindo que compartilhemos dos sonhos e desejos do personagem. Esse efeito poderia causar uma sensação de calma em demasia, caso não fosse contrabalançado com as linhas curvas predominantes na parte superior da composição, especialmente no rapaz e na montanha (canto superior direito), nas rodas mais ao centro e na capota do carro. Essas linhas curvas ainda ecoam na frase “Vectra. O mais Belo”, criando um elo de percepção para o texto que continua no canto inferior esquerdo, dando expressividade e um caráter equilibrado á composição. Contudo, apesar de todas essas estruturas adicionais o nosso olhar não se perde, ao contrário, elas completam a visão do todo guiando o nosso olhar da esquerda para a direita e de cima para baixo. No centro da composição ocorre o clímax dos contrastes, retendo a nossa atenção novamente em torno do tema como manda um bom estudioso da Gestalt****.
Concluindo, após essa breve análise fica a sensação de um encontro harmonioso de linguagens. As estruturas originais da obra de Caravaggio foram respeitadas e, mais importante ainda, foram adicionados elementos que reforçam o sentido conceitual da criação dessas estruturas, gerando um belíssimo anúncio.

*Michelangelo Merisi da Caravaggio é conhecido pelo nome de sua cidade natal, perto de Milão, de data de nascimento duvidosa, morreu em 1610 provavelmente com apenas 39 anos.Inspirado pelas obras dos mestres renascentistas Leonardo da Vinci e Michelangelo, Caravaggio inaugura o nascimento do Barroco que seria o estilo dominante do século XVII.
O poder da pintura de Caravaggio vem da sua notável capacidade de combinar numa mesma imagem o realismo, a distorção e o simbolismo.À primeira vista ele parece tratar os fatos tal como ocorrem na vida real, contudo, quanto mais estudamos os seus quadros, mais percebemos sua artificialidade - suas distorções, seu simbolismo estratégico.O realismo por si só, poucas vezes consegue produzir obras de arte satisfatórias ou convincentes. Eis aí o seu mérito.


** Sfumato (ital. Esfumato) Termo utilizado para descrever as transições de cor, em especial o tom, de claro a escuro realizadas de forma gradual que resultam imperceptíveis.Leonardo da Vinci concedeu grande importância a estas transições ,como meio de obter um tipo de relevo que ele acreditava ser essencial a pintura.



***Chiaro/Scuro Técnica de luz utilizada na pintura em especial no renascimento para acentuar a diferenciação dos planos numa composição. Ao contrario do Sfumato, não há uma transição gradual das áreas de claro e escuro, pois essas não estão submissas a emissões de luz e sombra, pelo contrário as áreas claras são independentes das áreas escuras.



****Gestalt –Teoria formulada no campo da Psicologia da Percepção no início do séc. XX, com fundamentação cientifica, que criou a concepção de um sistema de Leitura Visual da Forma do Objeto.



Automóvel, auto-erotismo, autonomia.

Professor Doutor Pedro Luiz Ribeiro de Santi

Automóvel é um termo que significa “aquilo que se move por seus próprios meios”. O termo deve fazer referência aos veículos com tração animal que o antecederam.É auto-evidente que a autonomia não existe, nem para os veículos nem para os animais - como este que agora escreve (o autor) - mas talvez obtê-la seja um dos nossos maiores desejos. Como lembrou o João Carlos, aqui vizinho de artigo, o desejo implica uma falta.Auto-erotismo é um conceito da psicanálise que se refere à percepção de que na primeira infância, a criança busca prazer na estimulação do próprio corpo, fonte de excitação. A criança (de todas as idades) custa a aprender a existência de outras pessoas no mundo e sua dependência para com elas. Esta dependência do outro é absoluta neste ser humano, que nasce num estado de desamparo, sem qualquer condição de se auto-sustentar.Narcisismo, por sua vez, é um termo da medicina do século XIX do qual Freud se apropriou, transformando-o num conceito próximo ao de auto-erotismo. Ele implica num fechamento com relação ao mundo externo: a criança se fecha em torno de uma auto-imagem que, por sua vez, deriva daquilo que ela pôde apreender do desejo dos outros sobre si (não é possível ou pertinente fazer aqui uma apresentação mais detalhada do processo). Paradoxalmente, o narcisismo implica no esforço por se corresponder ao desejo do outro.A relação entre o narcisismo e o mito de Narciso é a idéia de fascinação pela própria imagem refletida e uma tamanha alienação com relação ao real externo que leva Narciso a um desfecho trágico, em duas variantes mitológicas: numa delas, Narciso imobilizado diante da imagem que o fascina, definha e morre de fome; na outra, Narciso, como nós, arremessa-se sobre a imagem do objeto pelo qual se apaixona e, como nós, passa reto por aquilo que é só uma fachada, afogando-se.Numa síntese, narcisismo implica na busca de um fechamento com relação ao mundo externo. Tudo aquilo que gera frustração ou diferença - ou seja, o mundo real com as outras pessoas e suas próprias necessidades diferentes das minhas - é negado. É a busca por se ter só prazer e evitar qualquer forma de dor. A mais narcisística das dinâmicas mentais é a psicose alucinatória. Em dose ambulatorial, o narcisismo é um apelo nostálgico poderoso em todos nós, que sofremos a queda do paraíso perdido infantil e ansiamos pelo repouso em seu reencontro. Trata-se da mais infantil das fantasias, em torno de si-próprio, anterior às fantasias relativas à busca de objetos de amor, envolvendo a sedução ou domínio do outro. Reparar as faltas, acabar com as frustrações, não estar mais à mercê do outro humano: autonomia.Narcisismo e PublicidadeEste regime de funcionamento é tão poderoso entre nós, que se produziu o termo “cultura do narcisismo” para se falar de toda a cultura ocidental desde a metade do século XX.Parece-me claro o constante apelo narcísico em campanhas publicitárias. É chover no molhado.E é exatamente aí que reside o ponto fraco da campanha que tratamos, penso. Ela é plana e explícita: num carrão, Narciso encontra a imagem que corresponde a seu ideal e com a qual gostaria de ser identificado. Não diga!O carro é um dos mais óbvios objetos de desejo e identificação para o consumidor, em especial o homem. É continuamente veiculado o quanto o homem valoriza num carro atributos como beleza, potência, status, etc. Trata-se de um objeto de identificação idealizado. É sabido que muitos consumidores estão dispostos a comprometer uma parcela significativa de seus salários para financiar esta imagem (compras e trocas consecutivas); antes de ter casa própria, educação, lazer e outras das coisas que na banalizada pirâmide do Maslow vêm antes. Cito brevemente duas campanhas que tratam do prazer narcisista de forma clara, mas com um pouco mais de humor e elaboração.Numa campanha veiculada no momento (abril/2002), um casal está trocando carícias. O homem derrama um pouco de cerveja sobre o corpo da mulher e a bebe com grande prazer; em seguida, derrama cerveja sobre seu próprio braço, volta-se a ele e a bebe, depois derrama sobre uma mesa e assim por diante. A moça fica desentendida momentaneamente mas, enquanto ele “mama sobre a mesa”, ouve-se o som de uma lata sendo aberta e vemos a moça derramando cerveja sobre seu corpo com um sorriso esperto. Ela entendeu o que move seu parceiro...E aí vem o psicólogo: a dimensão do prazer com o objeto de desejo é regredida ao prazer auto-erótico oral. Numa outra campanha, esta do ano passado, um jovem faz inúmeras atividades com muita pressa, sempre fazendo menção de que deve ir a outro lugar. Passa por fim pela casa da namorada, cujo encontro sofre da mesma ânsia por se desembaraçar; enfim, nosso herói entra em seu carro, fecha a porta, liga o ar, o som e, enfim, relaxa. Como fantasia, acrescentemos o recurso aos vidros escuros e à blindagem, para criar a ilusão de que se evita a intrusão do mundo externo.Pobre namorada, só no carro ele chegou lá. É que o lá dele é auto. Automóvel.Em outros tempos, o carro aparecia como veículo para seduzir outra pessoa. Mas aqui a questão é mais primária: a outra pessoa é um empecilho em meu caminho. Em outra dimensão, quase esquecida nas campanhas, o carro é até mesmo um meio de transporte. Mesmo no outro anúncio da campanha do Vectra, aquele que mostra a bruxa desviando o olhar da imagem que corresponderia à da Branca de Neve, temos mais elaboração. A imagem explícita perde o poder de evocar, ela é auto-explicativa.
Vá lá que minha impressão de obviedade possa ser condicionada pelo fato de eu ser psicanalista e professor da ESPM. De toda a forma, a idéia é a de que a imagem chapada não instiga, não prende a atenção e, provavelmente, não deixa marca de memória. A campanha chamou nossa atenção e provocou esta discussão; resta conferir se ela teve algum tipo de repercussão efetiva em seu público alvo, além destes professores que, com seus proventos, não tem o Vectra em seu campo de possibilidade de consumo. Um pouco de filosofiaSó mais um breve comentário sobre a dimensão “auto”, mais próximo da história da filosofia. A campanha evoca, também explicitamente, o quadro de Caravaggio, com a diferença de que se mostra um céu claro por detrás e a água parece turva (numa versão para a internet, há uma animação que mostra a água em movimento, como se narciso tivesse tocado a superfície). Um dos elementos de sua pintura é o jogo claro/escuro (muito bem usado na versão da Bruxa), próprio da passagem do século XVI ao XVII. Este recurso também diz respeito à questão do narcisismo e formação do “eu”. O Renascimento europeu (até o século XVI) foi um período extremamente fragmentado e confuso, entre outras coisas pelo renascimento do ceticismo. Há muitos autores que datam o início da modernidade no século XVII, apresentando-o como um “contra-Renascimento”. Neste século, em todas as áreas houve um forte esforço em se encontrar clareza, definição, objetividade e controle.A técnica do claro/escuro em pintura encontra paralelo na filosofia de Descartes. Em busca de escapar do ceticismo, ele passou a recorrer a seu método; duvidando de tudo sistematicamente, procurou encontrar algo que escapasse aos recursos céticos. O que fosse errado, ele chamava de errado, o que fosse incerto, também era chamado (ainda que provisoriamente) de errado. Só o que fosse absolutamente à prova de dúvida mereceria ser considerado verdadeiro. Podemos não ter certeza sobre a existência de nosso corpo, das outras pessoas e todas as outras coisas, mas podemos sempre ter a certeza imediata do próprio “eu”. Esta é a primeira certeza e fundamento da filosofia moderna. O eu se destaca da confusão do mundo e é o sujeito por oposição a tudo o mais, tomado a partir de então como objeto. Institui-se a oposição radical eu/não eu. Em conclusão, na campanha em questão, a valorização do eu através da aquisição do Vectra é insistente e redundante, sobrepondo-se a imagem de um Narciso claro e bem definido contra um mundo externo sombrio, cujos sinais ele busca ignorar.
Como receptor particular, a visão de narciso encantado com sua imagem desperta em mim a lembrança de seu destino: investindo todos os seus recursos numa superfície e alienado de seu corpo real, a vida definha. Solidão e vazio sob uma bela casca.


O naufrágio de Narciso

Professor Doutor João Carlos Gonçalves

Recrio o visível
a meu desejo
com particulares matizes
Invento o visível
de acordo com meus próprios olhos
para que através de cotejo
a novos prismas
Outros olhos o vejam
(Visibilidade – Henriqueta Lisboa)



O próprio olhar já é espelho. Olhar que faz mediações, escolhe o que quer ver, recorta, decupa, seleciona... recria o visível. O olhar não é uma experiência neutra, mas sim uma cumplicidade. O olhar ilumina o objeto e o sujeito contemplador é um observador, portanto, o próprio olhar já é uma transgressão, um jogo criador: ao olharmos para um objeto vemos a imagem de nosso desejo.
Olhar, palco onde se encena a própria representação. E se falando em representação, estamos falando em Semiótica, palavra ambígua, grávida do olhar, que vem do grego semeion – signo – que, por sua vez, vem do étimo grego secnom, raiz do verbo “extrair uma parte de”. Do derivado latino de signo são emblemáticas as palavras sinal, senha, aceno, desenho e significar.
Assim, ao se falar em Semiótica, fala-se neste signo, conceito elementar de toda e qualquer linguagem: aquela alguma coisa que representa algo para alguém. Ou seja: todo e qualquer signo, na sua relação com aquilo que ele representa apresenta, por sua vez, a natureza de um duplo: a linguagem substitui/registra/está no lugar de alguma coisa que não é ela própria. O conceito adotado pelo fundador da Semiótica, Charles Sanders Peirce (1839-1914) nos acena:

“Um signo, ou representamen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido.” (Peirce, 1977:46)

Estamos diante de uma presença que delata uma ausência: tornando-se presente, o signo torna ausente aquilo a que se refere.
Mas, para que serve toda esta filosofia, se estamos num mundo em que o caráter utilitário das coisas está em sempre em primeiro plano? Mas, afinal, para que serve a Semiótica? Para Décio Pignatari e Lucia Santaella, incansáveis pesquisadores desta Teoria Geral dos Signos, Semiótica é a ciência que ajuda a “ler e ver” o mundo. Serve para estabelecer relações entre linguagens; para “ler” as representações não verbais - “ler” um filme, “ler” um quadro, “ler” uma peça publicitária – e sua relação com o verbal; pois, muitas vezes, sob as imagens e palavras podemos encontrar um jogo infinito de significações. A semiótica, portanto, nos ajudaria a “ver” o que um texto diz e como ele é estruturado para dizer o que diz. É bom lembrar que na Europa já existem consultores em publicidade que se utilizam dos conceitos semióticos para prestar serviços à agências de publicidade, ajudando seus clientes a alcançarem a melhor comunicação entre seus públicos, respondendo às “velhas” questões: o que dizer (mensagem); como dizer (código); quem deve dizer (canal).

Voltemos ao olhar: Caetano Veloso, talvez o mais “narciso” dos artistas, sabiamente poetisa: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Mas o que é o feio, o que é o bonito? Mas então o que vemos?
Vemos o que desejamos ver.
Não podemos esquecer que, psicanaliticamente, desejo é falta, é ausência. É justamente nesta fenda do olhar que reside o enigma: se vejo o que desejo, não vejo o objeto em si (o real), mas sim o signo (a representação). O signo em si delata uma ausência daquilo que ele representa. Ou mais: O signo não é aquilo que representa, mas uma parte do objeto, o real só é parcialmente capturado pelo signo, portanto o real é, necessariamente, inatingível. Estamos sempre, como narciso, diante de um espelho, que nos devolve o que vemos: uma imagem. Mas qual? O que é Imagem? Imagens no sentido teórico do termo são signos icônicos ou analógicos, são, também, signos plásticos como cores, formas, composição interna, texturas, apontando quase sempre, como no caso na publicidade, para signos lingüísticos (linguagem verbal). É sua relação, sua estrutura, sua interação, que produz determinado sentido e que a semiótica nos ajuda a decifrar e compreender melhor, pois, mais uma vez, a imagem é, antes de mais nada, algo que se assemelha a outra coisa e, analogia ou semelhança coloca esta imagem na categoria das representações. Se ela opera por similaridade é porque ela não é a própria coisa a que se refere: sua função é, portanto, evocar, querer dizer uma outra coisa, utilizando o processo de semelhança. Se a imagem é percebida como representação, isso quer dizer que a imagem é percebida como signo.
Roland Barthes, por exemplo, reconhece na imagem a especificidade da conotação: a faculdade de provocar uma significação segunda a partir de uma significação primeira. A fotografia (significante) me permite reconhecer um “objeto” (significado) constituindo um signo pleno (um significante ligado a um significado). Contudo esse signo pleno pode prosseguir sua dinâmica significativa tornando-se o significante de um significado segundo: estamos diante de uma leitura simbólica da imagem.

Mais uma vez, a Arte nos ensina algo mais sobre o caráter provisório da vida: a vida (o real – objeto?) é breve, a arte (representação – signo?) eterna.
“A arte é o oriente dos signos”; quem não é capaz de ver-compreender o mundo das imagens (icônico) e seus nuances, dificilmente será capaz de compreender corretamente o mundo verbal, também permeado pela poesia e pela arte. Estaríamos diante de um narciso naufragado.
Abordar ou estudar certos fenômenos, no nosso caso a relação publicidade x arte, em seu aspecto semiótico é considerar seu modo de produção de sentido, ou seja, a maneira como provocam significações, suas interpretações, pois um signo só tem sentido se exprimir idéias e se provocar na mente daqueles que o recebem uma atitude interpretativa.


Ao nos deparamos com uma “obra” a ser lida-interpretada, nos deparamos, também, com o questionamento sobre a legitimidade desta interpretação: ela corresponde às intenções do “autor”? Este “autor” quis realmente dizer isto ou esta interpretação é uma “viagem” do “leitor”? O “autor” não quis dizer, ele disse. Tudo está na “obra”, portanto lembramos:

A mensagem é uma produção consciente e inconsciente de um sujeito-autor, que se utiliza de um código, a fim de afetar uma mente interpretadora.

A “leitura” dessa mensagem-obra a faz viver e perpetuar-se, mobilizando tanto o consciente quanto o inconsciente de um receptor-leitor.

A relação Produção x Recepção é mediatizada pelas “leituras” que geram significações possíveis.

O quadro “Narciso” de Caravaggio de 1598: uma evocação ao mito que lhe deu origem. Narciso se esquece de si próprio porque confunde sua imagem, uma representação do seu Eu, portanto um signo, com o próprio Eu (o real). Aliena-se neste signo, toma a imagem por realidade e desaparece como Ser, como objeto, ou como realidade: perde-se de si. Não sabe, ou não aprendeu a se ver no olhar o outro, na diferença: acha feio o que não é espelho.

O quadro de Caravaggio, reencenado em 2002 em uma peça publicitária : Narciso olha para o lago e não vê sua própria imagem, mas sim a imagem do seu desejo de consumo, um carro, um Vectra. O próprio Eu é substituído pelo Eu do produto, falsamente humanizado. Aqui Narciso não se perde, mas se encontra na imagem como outro do Eu, o objeto de seu desejo, que o substitui, o representa. Não nos cabe uma análise crítica e sociológica, mas sim discutir a linguagem, a articulação dos signos que na referida peça é, inegavelmente, perfeita: chama a nossa Atenção, desperta o nosso Interesse... o Desejo e a Ação fica para os consumidores em potencial.
Interessante notar, que na peça em questão, até mesmo a principal chamada verbal “Vectra. O mais belo” é iconizada, pois acompanha a sinuosidade das ondas da água: a palavra se faz imagem.
Se nosso olhar é o espelho do outro que nos mira, na peça este outro é um objeto de consumo. A fina película de nossa identidade é quebrada. Nossa identidade é aquilo que consumimos. Mas quem percebe esta sutileza?

Já que estamos falando da poética da percepção, cabe encerrar com a epígrafe que abre “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Se olhamos mas não vemos, se vemos mas não reparamos, assistimos, metaforicamente ao naufrágio de Narciso. Precisamos aprender a ser mais ágeis que as águas do rio e, talvez, perceber que o próprio rio se assemelha ao homem, em sua mutação... em seu curso. A semiótica nos ajuda a “ler” este rio, que é o homem, que é o mundo.



Silvana Novaes Ferreira é graduada em Artes Plásticas pela FAAP e pós-graduada em História da Arte pela USP e em Marketing pela ESPM. É professora de História da Arte I e II.

João Carlos Gonçalves é doutor em Educação pela USP, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo e professor da ESPM em Teoria da Comunicação.

Pedro Luiz Ribeiro de Santi é doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, mestre em Filosofia pela USP e Professor de Psicologia I na ESPM


Bibliografia:

Arnheim,Rudolf. Arte e Percepção Visual, Edusp S. Paulo.

Janson,H.W. Iniciação à História da Arte, Martins Fontes S.Paulo

Coelho Netto, J. Teixeira. Semiótica, informação e comunicação. São Paulo, Perspectiva, 1999.

Peirce, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo, Perspectiva, 1994.

Pignatari, Décio. Semiótica e literatura. São Paulo, Cortez e Moraes, 1979.

Santaella, Lúcia. Cultura das mídias. São Paulo, Experimento, 1996.

________. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo, Iluminuras, 2001.


Tuesday, August 08, 2006

Tem coisas que o dinheiro não compra: bom gosto, por exemplo.




Quem falou que a onda da “idéia photoshop” morreu? Olha ela aqui dando o ar da graça neste assustador anúncio.

Parece incrível que exista um profissional de marketing com a capacidade de aprovar esse filho de Chernobyl. Mas existe e a prova está bem diante de nossos dois olhos (afinal somos normais).

Torço para que essa atrocidade tenha sido cometida por algum criador alienígena (tipo do México). De lá já fomos obrigados a agüentar um comercial onde as pessoas flutuavam. Lembra? Ainda bem que não.

Minha santa ira está num detalhe: o bom gosto estético. O anúncio em questão passou longe. Êta coisinha horrível. Imagino como foi a defesa dele.

“Temos que chamar a atenção do público-alvo. E hoje em dia as imagens inusitadas fazem o serviço”.

Pobres dos empresários que certamente, depois do susto, ficaram longe dessa aberração.

Esquigalo ou galesquilo, você está advertido.


Monday, August 07, 2006













Aguarde os primeiros Advertidos. Enquanto estamos em fase de testes, fique com esta web.

Advertido

Acaba de entrar no ar o blog Advertido. Um espaço dedicado a comentários sobre a propaganda brasileira e mundial.

Buaaaaaaaaaaaaaa.